30/04/2020

O último segundo


Naquele momento não me fiz mais existir.
Mas ainda deu tempo te dizer tantas coisas.
Deu tempo de deixar correr uma lágrima pelo meu rosto inteiro.
É, deu tempo, te tentar te fazer acreditar.
Deu tempo de ouvir por todas as vezes que não quis fazê-lo.
Deu tempo num segundo apenas de dizer que te amo.
Coisa que imaginei muitas vezes para te dizer.
Deu tempo de pegar as tuas mãos, apertá-las,
passar as minhas sobre a tuas e,
Lentamente descobrir-te no céu dos meus sentimentos.
Deu tempo de perceber que meu sangue excitava-se.
O que o meu coração pedia.
Deu tempo de te oferecer muitas flores.
Construir canteiros e virei um sementeiro.
Mas principalmente as que plantei em mim.
E às flores que reguei em todas as manhãs e tardes no melhor dos meus dias.
Deu tempo de te ver no sol e me despedir também.
Deu tempo de olhar para o céu e te enxergar passando...
No ocaso do tempo ou do outro lado de mim.
Deu tempo de te perdi para não ir.
Mas você se foi e me esvaziou.
Deu tempo de soluçar e não me controlar num sinal de amor incontido.
Deu tempo de ter tempo de olhar por um tempo e na ilusão, segurá-lo.
Como se quisera sempre ter o teu abraço em mim.
Agora eu sinto que escapa meu último segundo.
Algo me aperta...
Então, eu te peço não se vá.
Não, não se vá.
Importa-me que fique, mesmo que em miragens ou sonhos.
Mesmo que fiques dissimulada igual àquela lágrima que rolou e o sorriso que ficou.
Lembra daquela lágrima?
Eça está, existe, ficou...
Mas embora que seja em forma de miragem, não se vá.
Deixe-me respirar um pouco mais.
Quero existir para te amar nem que seja por apenas alguns segundos.

Nilson Ericeira

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