01/04/2020

Carta de alforria


Embora dê passos, ande, gesticule e reclame
Embora tenha voz, ando em senzalas
Ainda que eu tenha o dia e espere à noite
Ainda que não me alimente somente de pão
E que não sacie a minha sede só com água!
Mesmo que tenha um céu prometido
Com anjos e tudo perfeito
Ainda assim nada falho se correntes me sufocam
E se do meu lado alguém sofre e se reprime
Se a minha crença é inútil e eu me torne um fã à toa
E do que vale a vida se meus propósitos são egoísticos
Proponho-me Senhor, a minha carta de alforria
Talvez liberto eu seja se permitir arbitrário
E assim não me iludir com cenários
E nem me esforçar para sorrir
E ver virtudes onde só há defeitos
E desse fel não provar
Pois eu sei que do pior que me fizeram provar
Andei pecando eu sei, mas não foi por falta de amor
Talvez muito mais por excesso
E nesta petição eu te peço que não prendas e nem me repreendas
Pois se da prisão de que me impões há algo que preste
Eu detesto, pois viver sem liberdade é não ter asas
E mesmo quando em outros tempos tivera, feridas com sangue a verter
Por essa razão, e tantas outras que me incluo a desafiar, viver não é morrer
Mas lutar para que amarras não se tenha
Então, eu prometo, que logo que me liberte
Melhores pedidos fazer

Nilson Ericeira

Nenhum comentário:

Postar um comentário