07/02/2020

Minha cidade adormecida

Cai o silêncio da noite, depois de um dia de chuva.
A cidade silencia completamente,
um frio entranha em nosso corpo.
No quarto e na varanda as baladeiras se esticam a espera de um corpo que se junte e com ela adormeça.
Enquanto em tempo comum, sapos e grilos coadunam-se numa sinfonia que retine nos ouvidos.
Aqui embaixo muriçocas tiram sangue de umas das minhas pernas pálidas.
Mas aflição do poeta não é com a noite,
mas que ela passe e nunca mais volte...
E com as despedidas que se forjam.
Umas que nunca se fizeram e outras na porta da saída.
Talvez o único lugar de que chegaram e com pressa.
E a cidadezinha continua em sono tranquilo.
Se parece até com aquela de antigamente!
Mas como me dói uma saudade de não está lá.
No mesmo sentido e da mesma forma que preciso está por cá.
Assim posso sentir o cheiro de tinta fresca do que me esforço para ser em palavras.
Aliás, me sinto dominado por letras, pois vivem a perturbar meu sono.
E, na minha redundância costumeira, tento lhes dá forma.
É que chamo de poesia, mas sei que é tosca,
inválida e sem sentidos.
Mas ai de mim se não me acoplasse a esse mundo enigmático.
Agora até que enfim escuto passadas de gente.
Creio que é mais um que não se livra do açoite imposto.
Ou mesmo alguém que quis me desmentir,
fazendo-me crê que a nossa cidade não dorme.
Prefiro me desdizer a morrer sem impressões minhas.
Não é à toa que para alguns não passo de um bobo.
Um bobo que cria labirintos, formulas, mundos e sonhos.
E que vivo a defender teses de que não sei.
Talvez, quem sabe, um dia darei meu rito final.
E, assim, eu e minha cidade iremos pra onde nem sei.
Desculpem-me, mas é uma paixão comprometida e um amor incontido.
De quem não dorme sem se despedir dela todos os dias.

Nilson Ericeira
         

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